nervo em fogo a lembrança do começo percorre todas as coisas
um coice de esperança desafogada de entranhas vasadas pela inversão
das horas em direcção ao dentro do fim
cheira ainda a gordura hepática o querer que o mundo tivesse um começo
as facas estão gastas pela jugular dos sacrificados
terrificamente aguardados na ante-espera dos que se esquecem
não há compromissos que lavem a estranheza do alvor da lua
no sorriso das mulheres quando são a presença do pristino
quarta-feira, dezembro 3
retornação
nego e sigo dispo e cuspo
te no centro da avelutada grandura de rasgar os olhos na vértebra lancinante do horizonte
e as águas rasgam-se e em catadupas de exsudação silenciarmante
vertem-se de figuras veladas as vestais que guardam o resto da sagração
do mundo e da espera sudário do descompasso
e não há depois
não há o que acrescentar à sede impressionada de cima e de baixo pela luz que passa pelos bocados do tempo
vitral de descontinuação e clepsidra sangrante
mênstruo rubificado na duração da increpitude
te no centro da avelutada grandura de rasgar os olhos na vértebra lancinante do horizonte
e as águas rasgam-se e em catadupas de exsudação silenciarmante
vertem-se de figuras veladas as vestais que guardam o resto da sagração
do mundo e da espera sudário do descompasso
e não há depois
não há o que acrescentar à sede impressionada de cima e de baixo pela luz que passa pelos bocados do tempo
vitral de descontinuação e clepsidra sangrante
mênstruo rubificado na duração da increpitude
sou cigano
sou cigano e no assim
dispo dentro de mim a capa de silenciado
e danço
sou um com o espaço gume
e sangro-me rubro ébrio maldito
e dou-me a beber aos olhos negros da madrugada
despida e alada rasgada em flor
exangue do amor
parto na lua e na melopeia das giestas ermadas pelo vento
dispo dentro de mim a capa de silenciado
e danço
sou um com o espaço gume
e sangro-me rubro ébrio maldito
e dou-me a beber aos olhos negros da madrugada
despida e alada rasgada em flor
exangue do amor
parto na lua e na melopeia das giestas ermadas pelo vento
iii.algicídio
os violinos incapacitam a desesperança das trevas
são luz chispante de fogo e rasgura
vibram látegos doirados de dentro da escuta
um ermo a sorvência da necessidade
param no pranto as dores desviadas da carne pulsátil
só os nenúfares dão à luz a luz deserdada
depois de compactada a lama na cadência das trevas
tudo o que a morte tocou vai para o fundo e é enraízado
as línguas das fomes cegas sorvem até o som pútrido da saciedade
são luz chispante de fogo e rasgura
vibram látegos doirados de dentro da escuta
um ermo a sorvência da necessidade
param no pranto as dores desviadas da carne pulsátil
só os nenúfares dão à luz a luz deserdada
depois de compactada a lama na cadência das trevas
tudo o que a morte tocou vai para o fundo e é enraízado
as línguas das fomes cegas sorvem até o som pútrido da saciedade
larmen(tos)
sulcam os dias de breves e prementes
as sementes de sensoriais incomburências
sons somente que não percutem mais que a distância
há no toque de finados da carne sorvendo-se
um apelo de antes da escuta
até que o mar venha de dentro sagrado e devoluto
submergir o desejo
e reabrir a janela de ser gente com a roupa engomada
as sementes de sensoriais incomburências
sons somente que não percutem mais que a distância
há no toque de finados da carne sorvendo-se
um apelo de antes da escuta
até que o mar venha de dentro sagrado e devoluto
submergir o desejo
e reabrir a janela de ser gente com a roupa engomada
abyssus
arrancada a pele de chofre sobre o si
despegada de tudo
arde de longes e agulhas de gira-discos na infância
pedaços de vidro de ter visto a morte como ela não é
espalham-se em redor da estimativa de ir lá
mas como?
é sempre aqui que as feridas se sangram
amor-te amarga norte tragada morte amato-te
e sei os teus sulcos liquefeitos do dentro
despegada de tudo
arde de longes e agulhas de gira-discos na infância
pedaços de vidro de ter visto a morte como ela não é
espalham-se em redor da estimativa de ir lá
mas como?
é sempre aqui que as feridas se sangram
amor-te amarga norte tragada morte amato-te
e sei os teus sulcos liquefeitos do dentro
despitura
despe-se
e todo o mundo se cobre duma luz de não ser visto
uma cegueira espumosa irrompe
o desejo é uma fuga e um fiat
o infinito faz arder a aparência das coisas e o que elas têm dentro
lastro de papel e de presença assídua
só o gume que cortou a púbis pode degolar o canto
essa castração impossível
que rompe no silêncio a plenitude do audível
e todo o mundo se cobre duma luz de não ser visto
uma cegueira espumosa irrompe
o desejo é uma fuga e um fiat
o infinito faz arder a aparência das coisas e o que elas têm dentro
lastro de papel e de presença assídua
só o gume que cortou a púbis pode degolar o canto
essa castração impossível
que rompe no silêncio a plenitude do audível
Interpelação
e tu menina
virgem da continuação
como te vês no espelho negro do desaguar dos vindouros?
trazes no ventre um impostor
não nascido não parido parricida e devorador dos tempos
o negrume e a luz que rasga os olhos protrépticos dos infelizes...
a faca faleceu no despontar das pétalas graves da maresia frente à ilha dos degredados
lá no longe onde ninguém habita errando e aberto em lâminas fulgurantes
és a recusa do prazer e da agonia
larvam-te as horas de pontadas de chá fumegante
na pedra-pomes de te quereres plena
és a face secreta da lonjura
pingam de baixo os sonhos vermelhos de não ver para lá
és a encarnação do desejo do homem de hoje
esse espalhafato de desejo e fogo preso
na hora de sempre
afundando-se no prazer sem mais
as alvura da encenação repleta de si
virgem da continuação
como te vês no espelho negro do desaguar dos vindouros?
trazes no ventre um impostor
não nascido não parido parricida e devorador dos tempos
o negrume e a luz que rasga os olhos protrépticos dos infelizes...
a faca faleceu no despontar das pétalas graves da maresia frente à ilha dos degredados
lá no longe onde ninguém habita errando e aberto em lâminas fulgurantes
és a recusa do prazer e da agonia
larvam-te as horas de pontadas de chá fumegante
na pedra-pomes de te quereres plena
és a face secreta da lonjura
pingam de baixo os sonhos vermelhos de não ver para lá
és a encarnação do desejo do homem de hoje
esse espalhafato de desejo e fogo preso
na hora de sempre
afundando-se no prazer sem mais
as alvura da encenação repleta de si
ii. afrodisia
A música do mundo, o colapso da sonoridade, a anamorfose sorumbática dos ecos no interior da espiral de pétalas carnais do nosso ouvido interno...
a música tem propriedades erotopoiéticas, dá-nos a sentir a não necessidade de termos uma alma separável da alma do mundo, no sapateado galopante de sermos nós no esconso de Deus, a superfície da terra, sobre as funduras parturientes que se regorjitam na boca castrada dos vulcões, o cântico impossível da lava e do fogo, a sinfonia do enxofre e das cinzas.
É terça-feira, de vez em quando. Uma melodia que não se conforma com a partitura pendurável dos calendários.
a música tem propriedades erotopoiéticas, dá-nos a sentir a não necessidade de termos uma alma separável da alma do mundo, no sapateado galopante de sermos nós no esconso de Deus, a superfície da terra, sobre as funduras parturientes que se regorjitam na boca castrada dos vulcões, o cântico impossível da lava e do fogo, a sinfonia do enxofre e das cinzas.
É terça-feira, de vez em quando. Uma melodia que não se conforma com a partitura pendurável dos calendários.
i. limiar
Somos todos e ninguém.
enraizados no nada, somos flores do impossível
e as tardes pesam sobre a impermanência do mundo
começa cedo a implosão da aurora
expulsos da ideia de termos um paraíso além de tudo
como poderemos livrar-nos da sorte dos náufragos?
enraizados no nada, somos flores do impossível
e as tardes pesam sobre a impermanência do mundo
começa cedo a implosão da aurora
expulsos da ideia de termos um paraíso além de tudo
como poderemos livrar-nos da sorte dos náufragos?
quarta-feira, maio 3
na praça
passa o que passa
vem o que vem
a aurora de ninguém
na margem suja da praça
o chão de tristezas feito
as casas em desalinho
o céu de um azul quase perfeito
ao longe as curvas dum caminho
tudo é o que é
sem a máscara do querer ser
a porta umbralina do café
a tarde da gente a envelhecer
tudo passa tu vem
dentro da pequenez da praça
um mundo de ninguém
vem o que vem
a aurora de ninguém
na margem suja da praça
o chão de tristezas feito
as casas em desalinho
o céu de um azul quase perfeito
ao longe as curvas dum caminho
tudo é o que é
sem a máscara do querer ser
a porta umbralina do café
a tarde da gente a envelhecer
tudo passa tu vem
dentro da pequenez da praça
um mundo de ninguém
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