sábado, dezembro 6
aerossol
é no estar ao sol que o tempo me seca na pele
e os esgares de fundo e traços findos me escrevem
os que foram meus anos e acenos de nunca há longes na carne e no rubor
das faces que sorvem o ar na manhã e na vacilação dos acentuados regressos
à planura do aqui quando o vento se aquieta e desgraça o fresco
dá para sentir o abandono a si das coisas fora dos livros de metafísica
apenas coisas que enchem o espaço e escondem o que não há no repleto que enche os olhos
e lhes dá a visão do compacto caos lento em que se vive
numa margem ocupada de impossíveis intervalos requebrados de silêncio
por dentro da escuta
e os esgares de fundo e traços findos me escrevem
os que foram meus anos e acenos de nunca há longes na carne e no rubor
das faces que sorvem o ar na manhã e na vacilação dos acentuados regressos
à planura do aqui quando o vento se aquieta e desgraça o fresco
dá para sentir o abandono a si das coisas fora dos livros de metafísica
apenas coisas que enchem o espaço e escondem o que não há no repleto que enche os olhos
e lhes dá a visão do compacto caos lento em que se vive
numa margem ocupada de impossíveis intervalos requebrados de silêncio
por dentro da escuta
ligatura
ter a terra toda por terminação
nada ocupa o lugar do que não vem
a mão a mãe o inchaço
o corte de repente no braço que acena
ao longe o que não se tem
o que acabou ali no começo que havia
o mar é negro a lua jorra leite de cima
inunda-se o pranto de lavados enganos de ser sempre uma derrota
degolado cansaço a pele sobre a carne a tremer
no lado de fora do espaço
nada ocupa o lugar do que não vem
a mão a mãe o inchaço
o corte de repente no braço que acena
ao longe o que não se tem
o que acabou ali no começo que havia
o mar é negro a lua jorra leite de cima
inunda-se o pranto de lavados enganos de ser sempre uma derrota
degolado cansaço a pele sobre a carne a tremer
no lado de fora do espaço
sonoridade avessa à escuta
faz-se do som de dentro de si sem limites frásicos impossíveis
o que canta cala-se de si para além do canto e materializa-se na vastidão dos sonhos
não já homem sempre alado e calado de dentro
corta-se nas lâminas da língua estrangeira
e mudo de não ser ouvido música-se e de chofre no espaço é tudo
a ser engolido pelo abismo da poésis silvante
o que canta cala-se de si para além do canto e materializa-se na vastidão dos sonhos
não já homem sempre alado e calado de dentro
corta-se nas lâminas da língua estrangeira
e mudo de não ser ouvido música-se e de chofre no espaço é tudo
a ser engolido pelo abismo da poésis silvante
quinta-feira, dezembro 4
cinemania
a vida tem efeitos especiais
feitos em desassossego e impermanência
salta entre cenas diversas e não se desmancha
presa por um fio que vibra sem nada
podemos engoli-lo ou enrolá-lo ao pescoço
para nos suicidarmos das coisas rectilíneas
mas permanecemos vários e inconstantes
cortantes por vezes com a garganta em desalinho
mas se acesos somos percutidos pelo que não se esvai
nas tardes sangrantes de ter que sim
feitos em desassossego e impermanência
salta entre cenas diversas e não se desmancha
presa por um fio que vibra sem nada
podemos engoli-lo ou enrolá-lo ao pescoço
para nos suicidarmos das coisas rectilíneas
mas permanecemos vários e inconstantes
cortantes por vezes com a garganta em desalinho
mas se acesos somos percutidos pelo que não se esvai
nas tardes sangrantes de ter que sim
campos acesos de bruma
na bruma no desencanto desarmado de rijo
grito e grito e grito que sim
de rijo e aceso com manchas na luz da voz por ser assim
desmanchado de ventos recoberto de tormentas amarelas e rubras
cada som crescido é uma cor atirada para dentro da audição marítima
jorro e alva mandíbula desvirgulada de mansinho
com a manhã salutar e de par e par
de vagar o longe se encima de pranto
perdida a hora do embarque perpétuo
caiu no chão a mala mal cheia de brancos e azuis sapatos de andar
grito e grito e grito que sim
de rijo e aceso com manchas na luz da voz por ser assim
desmanchado de ventos recoberto de tormentas amarelas e rubras
cada som crescido é uma cor atirada para dentro da audição marítima
jorro e alva mandíbula desvirgulada de mansinho
com a manhã salutar e de par e par
de vagar o longe se encima de pranto
perdida a hora do embarque perpétuo
caiu no chão a mala mal cheia de brancos e azuis sapatos de andar
máscara insone
vives mas estás nas viragens do tempo
és mas vives e estás para lá da vida singrante
plasmas-te de chão e luas por dentro do sol sedento
mas vives nas viragens do tempo outro e ausente
és plenitude recortada recordada dada acordada simplesmente
és mas vives e estás para lá da vida singrante
plasmas-te de chão e luas por dentro do sol sedento
mas vives nas viragens do tempo outro e ausente
és plenitude recortada recordada dada acordada simplesmente
interlúdico
silentes assentes em baixo do convexo
sustento de cânfora e incensos outros
rasgadas são grades e proximidades que calam
no riso o corte trespassa a segurança da língua em sopros
retirada do dito com ternura
canto sustentado no longo som angular
violinos sucessivos dissonantes precisos de sim
cercadura sem recantos
trinado certeiro em assimétrica alucinação
sustento de cânfora e incensos outros
rasgadas são grades e proximidades que calam
no riso o corte trespassa a segurança da língua em sopros
retirada do dito com ternura
canto sustentado no longo som angular
violinos sucessivos dissonantes precisos de sim
cercadura sem recantos
trinado certeiro em assimétrica alucinação
v. o silêncio ritma
ossatura cristalizada no reverso do espaço
tempo retardado na dança do ser espraiar-se em estilhaços esfíngicos
o ente flutua na inconstância dejecto de mais e por enquanto permanece
um cristal aceso
dançar o ritmo insonoro
aumento e retardação
dada ausência símile de si
o lago e o rosto do lado desgosto alado vaporizado
a cair em sol de acordar de atacadores a passear-se a sós
tempo retardado na dança do ser espraiar-se em estilhaços esfíngicos
o ente flutua na inconstância dejecto de mais e por enquanto permanece
um cristal aceso
dançar o ritmo insonoro
aumento e retardação
dada ausência símile de si
o lago e o rosto do lado desgosto alado vaporizado
a cair em sol de acordar de atacadores a passear-se a sós
iv. infância forrada a nada e a tudo (em tudo/entrudo)
desgarrada
flores de aço parturientes gritos de mais
o regaço da vida infantina flauta inversiva
o ouvido
desescuta-se contra as paredes do tédio
escusado remédio de quem não se agita
ressuscita de pé e entretanto
todos os modos de soar são máculas descarnadas de si
agitam-se em redor sem cascas assomadas
crer somente sem o quê
flores de aço parturientes gritos de mais
o regaço da vida infantina flauta inversiva
o ouvido
desescuta-se contra as paredes do tédio
escusado remédio de quem não se agita
ressuscita de pé e entretanto
todos os modos de soar são máculas descarnadas de si
agitam-se em redor sem cascas assomadas
crer somente sem o quê
quarta-feira, dezembro 3
quando fui escravo
quando fui escravo
a fluorescência dos chicotes rasgou-me a pele saciada de sol
e da boca brotou-me o grito abortado de homem denegado
que nunca os chacais possam saciar-se de sangue
os homens putrefactos
seja deles apenas deles a desolação
podem fingir-se de mortos
cingir-se de auréolas e de glórias opalinas
que não seja seu o que não é do tempo
que não se apropriem da vibração das harpas
que tornará o vento premente
que não seja nunca deles a verdade do que sou
no sempre e nos ocasos
a fluorescência dos chicotes rasgou-me a pele saciada de sol
e da boca brotou-me o grito abortado de homem denegado
que nunca os chacais possam saciar-se de sangue
os homens putrefactos
seja deles apenas deles a desolação
podem fingir-se de mortos
cingir-se de auréolas e de glórias opalinas
que não seja seu o que não é do tempo
que não se apropriem da vibração das harpas
que tornará o vento premente
que não seja nunca deles a verdade do que sou
no sempre e nos ocasos
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