domingo, junho 6

Narcisismo

















Narcisos

Vivemos indecisos

Divisos

A medo de crescer

Inconsequentes

Nem já a inocência das águas

Longe a verdade de Ofélia

Já longe

Na inclemência do oceano

Simulacros

Os rostos opacos

Resplendem o que há fora

A ternura

A nervura de ser gente

Ressequida

Fica na garganta

Agrura de sede

Resto de uma quimera infantil

Condenada a naufragar

E no fundo há tanta água

Mais fundo que a mágoa

Florescer

É tudo dar

quarta-feira, junho 2

Verde
























Verde não sei
Se a esperança
Se a calma de nada vir
Encanta-me não sei porquê
O que na luz a luzir dá a ver
O sem porquê
A incompletude de praia
Que às coisas chega a certas horas
Um sorriso talvez
Do que de si nada sabe
E se percute em cada momento
O aberto
Golpe de asas súbito a arder
Presença ou ausência
Não tenho que escolher
Mas o aqui desabrocha
E entorna-se tudo
Na imponderabilidade
Um aceno talvez
O templo
Levanta-se de dentro
E já nada está enfermo

quarta-feira, fevereiro 18

27

a/mar-te; a Marte; mar-te

a força
profundidade alada
nos teus infundida
graça desgraça graça que vem
mãe oclusa
excelsa e sem nome
no pressentido
ocaso
dum beijo

domingo, dezembro 28

26.

anjos do chão

os anjos são no reverso do chão
o continuado alvor do coração da treva
luz ferina que se abre
ao depois que está aceso na proa das barcas que parte
para além
são pois tudo o que do sonho se escapa
e torna a realidade um tecido de espanto
os anjos
céleres e baços
aos olhos continuados dos que sofrem

sábado, dezembro 6

25.

andamento

de mãos cerradas
o grito suspenso na garganta mantida
no berço da treva
quando assim sem mais
então tudo se abre em afastamento
um mar de não ainda abre-se de repente
e tudo se mantém na impossibilidade de atingir
a totalidade opalina dos enganos
homem a tudo revertido
despido de mais e de duração
cai no instante em que se entrevê o aberto
e há um rasgão na manhã que não vem
é uma presença de sal e negação
no imo das águas segura ao leito da treva
a dissolução não procurada
sossega-se de sangue a madrugada

24.

mordência

a caixa fechada depois dos desenganos
as gotas do sol secretadas no fundo
bem por debaixo dos lenços do adeus lançado ao vento
amestrados agora pela escuridão e a naftalina
em riste a cimeira alegria de ter adormecido
e caído no poço dos remorsos que se tapam durante
as vigílias quase repentinas
e nas paredes brancas de ser um
a humidade de haver pensamentos em maré e quietação
deixa as marcas dum abandono bafiento
e dormente a incandescência das horas
revezadas nos estilhaços das promessas

23.

alecria

o vinagre derramado dos olhos
espraiados na distância alastrada
alé do horizonte que se vê
dormência alucinada
dissipa a melancolia pegajosa que envolve a concretude
do aqui
eros irromperá talvez no fim
chispante alado crespado de dissonância
e os invernos entranhados da escuta
outro néctar se derramarão sobre a ausência

22.

retorno

na irrequieta estagnação no amar
todo o universo suspenso na fresta que há
na pontuação dos dias
cravados nas dimensões reversas da treva
há um vazio que se insinua na concretude mais compacta
o que não se dissolve é uma boca que assoma pluvial e queimada de sede e agonia
há que esticar a pele do peixe morto no luar
salgar-lhe as guelras para depois matar a fome ao descontentamento
e abrir os olhos ao dentro
a boiar na espuma de não ser de cá

21.

calêncio

uma prece o esquecimento
vagueiam homens no chão que ampara os dias
e os leva para o escuro do vivido a correr
onde as águas se consumam em chumbo e frialdade sem remorso
são retratos constantes do que se cala no fundo
amparam uma teia de luz ensopada de odores de continuação
são os que ficam e têm da morte a fechadura
o dentro e o fora com duas voltas da chave se reverte

20.

aerossol

é no estar ao sol que o tempo me seca na pele
e os esgares de fundo e traços findos me escrevem
os que foram meus anos e acenos de nunca há longes na carne e no rubor
das faces que sorvem o ar na manhã e na vacilação dos acentuados regressos
à planura do aqui quando o vento se aquieta e desgraça o fresco
dá para sentir o abandono a si das coisas fora dos livros de metafísica
apenas coisas que enchem o espaço e escondem o que não há no repleto que enche os olhos
e lhes dá a visão do compacto caos lento em que se vive
numa margem ocupada de impossíveis intervalos requebrados de silêncio
por dentro da escuta

19.

ligatura

ter a terra toda por terminação
nada ocupa o lugar do que não vem
a mão a mãe o inchaço
o corte de repente no braço que acena
ao longe o que não se tem
o que acabou ali no começo que havia
o mar é negro a lua jorra leite de cima
inunda-se o pranto de lavados enganos de ser sempre uma derrota
degolado cansaço a pele sobre a carne a tremer
no lado de fora do espaço