quarta-feira, dezembro 3

saúdar os idos do nunca

nervo em fogo a lembrança do começo percorre todas as coisas
um coice de esperança desafogada de entranhas vasadas pela inversão
das horas em direcção ao dentro do fim
cheira ainda a gordura hepática o querer que o mundo tivesse um começo
as facas estão gastas pela jugular dos sacrificados
terrificamente aguardados na ante-espera dos que se esquecem
não há compromissos que lavem a estranheza do alvor da lua
no sorriso das mulheres quando são a presença do pristino

09.

retornação

nego e sigo dispo e cuspo
te no centro da avelutada grandura de rasgar os olhos na vértebra lancinante do horizonte
e as águas rasgam-se e em catadupas de exsudação silenciarmante
vertem-se de figuras veladas as vestais que guardam o resto da sagração
do mundo e da espera sudário do descompasso

e não há depois
não há o que acrescentar à sede impressionada de cima e de baixo pela luz que passa pelos bocados do tempo
vitral de descontinuação e clepsidra sangrante
mênstruo rubificado na duração da increpitude

08.

sou cigano

sou cigano e no assim
dispo dentro de mim a capa de silenciado
e danço
sou um com o espaço gume
e sangro-me rubro ébrio maldito
e dou-me a beber aos olhos negros da madrugada
despida e alada rasgada em flor
exangue do amor
parto na lua e na melopeia das giestas ermadas pelo vento

07.

iii.algicídio

os violinos incapacitam a desesperança das trevas
são luz chispante de fogo e rasgura
vibram látegos doirados de dentro da escuta
um ermo a sorvência da necessidade
param no pranto as dores desviadas da carne pulsátil
só os nenúfares dão à luz a luz deserdada
depois de compactada a lama na cadência das trevas
tudo o que a morte tocou vai para o fundo e é enraízado
as línguas das fomes cegas sorvem até o som pútrido da saciedade

06.

larmen(tos)

sulcam os dias de breves e prementes
as sementes de sensoriais incomburências
sons somente que não percutem mais que a distância
há no toque de finados da carne sorvendo-se
um apelo de antes da escuta
até que o mar venha de dentro sagrado e devoluto
submergir o desejo
e reabrir a janela de ser gente com a roupa engomada

05.

abyssus

arrancada a pele de chofre sobre o si
despegada de tudo
arde de longes e agulhas de gira-discos na infância
pedaços de vidro de ter visto a morte como ela não é
espalham-se em redor da estimativa de ir lá
mas como?
é sempre aqui que as feridas se sangram
amor-te amarga norte tragada morte amato-te
e sei os teus sulcos liquefeitos do dentro

04.

despitura

despe-se
e todo o mundo se cobre duma luz de não ser visto
uma cegueira espumosa irrompe
o desejo é uma fuga e um fiat
o infinito faz arder a aparência das coisas e o que elas têm dentro
lastro de papel e de presença assídua
só o gume que cortou a púbis pode degolar o canto
essa castração impossível
que rompe no silêncio a plenitude do audível

03.

Interpelação

e tu menina
virgem da continuação
como te vês no espelho negro do desaguar dos vindouros?
trazes no ventre um impostor
não nascido não parido parricida e devorador dos tempos
o negrume e a luz que rasga os olhos protrépticos dos infelizes...
a faca faleceu no despontar das pétalas graves da maresia frente à ilha dos degredados
lá no longe onde ninguém habita errando e aberto em lâminas fulgurantes
és a recusa do prazer e da agonia
larvam-te as horas de pontadas de chá fumegante
na pedra-pomes de te quereres plena
és a face secreta da lonjura
pingam de baixo os sonhos vermelhos de não ver para lá
és a encarnação do desejo do homem de hoje
esse espalhafato de desejo e fogo preso
na hora de sempre
afundando-se no prazer sem mais
as alvura da encenação repleta de si

02.

ii. afrodisia

A música do mundo, o colapso da sonoridade, a anamorfose sorumbática dos ecos no interior da espiral de pétalas carnais do nosso ouvido interno...
a música tem propriedades erotopoiéticas, dá-nos a sentir a não necessidade de termos uma alma separável da alma do mundo, no sapateado galopante de sermos nós no esconso de Deus, a superfície da terra, sobre as funduras parturientes que se regorjitam na boca castrada dos vulcões, o cântico impossível da lava e do fogo, a sinfonia do enxofre e das cinzas.
É terça-feira, de vez em quando. Uma melodia que não se conforma com a partitura pendurável dos calendários.

01.

i. limiar

Somos todos e ninguém.
enraizados no nada, somos flores do impossível
e as tardes pesam sobre a impermanência do mundo
começa cedo a implosão da aurora
expulsos da ideia de termos um paraíso além de tudo
como poderemos livrar-nos da sorte dos náufragos?

quarta-feira, maio 3

na praça

passa o que passa
vem o que vem
a aurora de ninguém
na margem suja da praça
o chão de tristezas feito
as casas em desalinho
o céu de um azul quase perfeito
ao longe as curvas dum caminho
tudo é o que é
sem a máscara do querer ser
a porta umbralina do café
a tarde da gente a envelhecer
tudo passa tu vem
dentro da pequenez da praça
um mundo de ninguém